A Luta contra a Balança

Leandro Feijão faleceu na véspera da pesagem do Shooto 43
Leandro Feijão faleceu na véspera da pesagem do Shooto 43

 

Na última quinta-feira, dia 26 de Setembro, faleceu no Rio de Janeiro o lutador Leandro Caetano “Feijão” de Souza. Ele estava fazendo sauna no último dia do trabalho de perda de peso para poder lutar na categoria peso-mosca (até 57Kg) do Shooto 43, quando passou mal e desmaiou. O atleta foi levado para uma unidade de pronto atendimento, mas veio a óbito. O laudo do IML apontou que a causa da morte de Leandro foi um AVC (Acidente Vascular Cerebral), que segundo fisiologistas, poderia ter ocorrido pelo sacrifício físico da desidratação para a pesagem, na véspera do evento:

“A desidratação deixa o sangue mais viscoso. Esse sangue faz com que o atrito com a parede do vaso sanguíneo seja muito maior, podendo romper. Alguns atletas tomam diuréticos, laxantes, ficam em saunas… São hábitos extremamente perigosos” – Turíbio Barros (Fisiologista que já trabalhou no Grêmio, São Paulo e Pinheiros; em entrevista ao portal UOL)

No dia 28, domingo, duas personalidades do MMA falaram sobre a morte do atleta no programa Esporte Espetacular:

“Talvez ele não tinha condições de ter um nutricionista ou um fisiologista o acompanhando desde o começo do treino, então isso gera uma perda de peso sem controle. É importante ressaltar que os atletas de alto rendimento tem profissionais ao redor que cuidam para que a gente perca peso de forma correta. São fatos isolados que acontecem com esses atletas que não tem experiência, e que não tem acompanhamento ideal”Anderson Silva (ex-campeão peso-médio do UFC e recordista de defesas de cinturão do evento)

“Fiquei sabendo que ele aceitou a luta a poucos dias do evento e teve que perder muito peso em pouco tempo. Os atletas tem que avaliar quanto peso tem que perder e se vale a pena. Sempre é triste ver alguém tão jovem morrer. Começam as perguntas se tem que bater o peso no mesmo dia da luta, se o lutador teria tempo para se recuperar antes da luta. Se for ver quantas lutas acontecem, e quantos morrem… Então talvez a questão não seja o corte de peso em si, mas aceitar a luta em cima da hora, tendo que perder muito peso” – Dana White (presidente do UFC)

Em fóruns e espaços de comentários dos sites que noticiaram a morte do lutador, esta foi usada por pessoas que criticam o MMA como justificativa para a crítica ao esporte. Em grande parte as críticas claramente vinham de indivíduos que nem se deram ao trabalho de ler as reportagens, já que sua retórica considerava que o atleta tivesse vindo a falecer durante/após uma luta por consequência direta de ferimentos sofridos durante o combate. Mas deixando de lado os haters – pois contra a ignorância não existe argumento – o falecimento de Leandro Feijão reabriu as discussões sobre a pesagem nos esportes de combate.

 

Glover Teixeira e Ronaldo Jacaré, lutadores do UFC, na sauna antes da pesagem (Foto de Rodrigo Malinverni)
Glover Teixeira e Ronaldo Jacaré, lutadores do UFC, na sauna antes da pesagem (Foto: Rodrigo Malinverni)

 

O RITUAL

No Jiu-Jitsu e alguns outro esportes, também existe a categoria de peso chamada ‘absoluto’, uma espécie de peso livre, onde não importa a massa corporal, e lutadores naturalmente de categorias diferentes se enfrentam. O MMA nasceu assim, quando ainda era Vale-Tudo (lembremos das lutas do franzino Royce Gracie contra gigantes como Ken Shamrock e Kimo Leopoldo, nos primeiros UFCs), mas conforme o esporte foi evoluindo e ganhando novas regras, as categorias de peso foram instituídas e as práticas de perda de peso foram adotadas.

Mas o processo de perda de peso para alcançar uma categoria abaixo de sua massa corporal natural em busca obter alguma vantagem na hora da luta não é novidade e nem exclusividade do MMA. A origem desse processo remonta ao boxe e se estende a praticamente todos os esportes de combate com categorias de peso, como a luta olímpica, o caratê, o judô, o jiu-jitsu, o taekowndo, o kickboxing, entre outros, mas pela forma que a pesagem se sucede, realmente torna-se um fator crítico no boxe e em seu herdeiro direto, o MMA. Assim, lutadores que naturalmente pesam 100 quilos, por exemplo, chegam a lutar em categorias 20 quilos abaixo disso, como é o caso do ex-campeão dos peso-médios (até 84Kg) do UFC, Anderson Silva. E era esse também o caso de Leandro, que, chamado em cima da hora para a competição, teria que cortar 15Kg em uma semana. Quando passou mal ainda faltava perder 900g.

“O peso da balança é surreal. Ali o lutador está sem energia, sem nutrientes, sem nada. Ele faz aquilo só pra bater o peso, depois você recarrega esse cara para ele voltar para a vida real dele, no peso saudável”Rogério Camões (preparador físico de lutadores como Anderson Silva, Ronaldo Jacaré e Erick Silva; em reportagem de 2012)

“Sempre é dificil, fico sem beber, sem comer, isso tira meu ânimo, minha alegria de sempre. Mas somos profissionais, temos que ir lá, bater o peso e depois reidratar. Normalmente, eu perco dez quilos na semana da pesagem: dois em cada um dos cinco primeiros dias, e três nas 24 horas antes de subir na balança. Umas três horas depois da pesagem já estou recuperado, mas não recupero todos os dez quilos. Gosto de lutar mais leve, com uns 72 ou 73 kg. Todos sabemos que não faz bem à saúde, mas, no meu caso, estou bem, porque estou acostumado a este processo”José Aldo (campeão do UFC no peso-pena, até 65,8Kg)

“Todos sabem que sempre competir na categoria dos leves. Quando surgiu a chance de lutar pelo título dos superpenas da OMB (Organização Mundial de Boxe) resolvemos aproveitar a oportunidade, mas é cada vez mais difícil bater o peso” – Acelino “Popó” Freitas (ex-pugilista, hoje deputado federal, em reportagem de quando ainda era campeão mundial de boxe)

 

Cinco lutadores precisaram ficar nus para bater o peso de suas categorias no UFC on FX 8 (UFC no Combate 2, no Brasil)
Cinco lutadores precisaram ficar nus para bater o peso de suas categorias para o UFC no Combate 2

 

O PERIGO

A pesagem, tanto no boxe quanto no MMA costuma acontecer em torno de 24h antes do evento, o que faz com que a desidratação seja a melhor forma de “enganar a balança”, em um processo de perda aguda de peso e rápida recuperação após alcançar a marca da categoria. Se o lutador não bater o peso em que está lutando ele é punido: Pode perder parte da bolsa (que é como é chamado o “salário” do lutador), perder o cinturão (no caso de ser o campeão), ou até mesmo ser demitido do evento ou organização em que luta.

No UFC, vários atletas já tiveram lutas canceladas na última hora por passarem mal logo antes ou após a pesagem (aconteceu com Nick RingHyun Gyu Lim e Nick Catone) ou foram demitidos por não bater o peso em mais de uma ocasião ou em uma combinação com outros problemas, como foi o caso de Dennis Hallman, Anthony Johnson, Alexandre Cacareco, entre outros, além da misteriosa e controversa demissão de Nate Marquart, que depois de ir para o Strikeforce teve a oportunidade de retornar ao maior evento de MMA do mundo. Enquanto no Jungle Fight, por exemplo, tido como o maior evento de MMA da América Latina, os lutadores que não batem o peso chegam a ser banidos do evento, fato que já aconteceu mais de uma vez.

“O Robson “New” por não ter batido o peso perdeu o cinturão e nunca mais luta no Jungle Fight. Isso serve de recado para todos os lutadores, em luta de cinturão quem não bater o peso está fora do evento. Esse é um esporte que exige disciplina. O que ele fez foi um desrespeito ao seu adversário e ao público. Por mim, ele não assiste o evento nem pela TV” – Wallid Ismail (ex-lutador, empresário de lutadores e presidente do evento, sobre a pesagem do Jungle Fight 55, em Julho de 2013)

“Não bateu o peso, nunca mais luta no Jungle Fight. Aqui não importa o time, o que manda é o artista. O artista é o lutador. Time não quer dizer nada para mim. Nada! O que importa é o lutador. Aí vai o Salomão e bate o peso disparado. São coisas incríveis que acontecem. Os dois do mesmo time, um disciplinado e o outro indisciplinado. O disciplinado vai longe. Não tem desculpa: “Ah, vê se o Arinaldo aceita…”. Quem não aceita sou eu! Eu nem pergunto para o adversário. Indisciplinado não tem lugar no Jungle Fight” – Wallid Ismail (sobre a pesagem do Jungle Fight 58, em Setembro de 2013)

O problema é que a perda de 20, 15, 10 quilos em poucos dias, além do processo de desidratação final, pode causar graves impactos no organismo, desde prejuízo na performance do lutador – muitas vezes é possível ver atletas que seriam considerados parte de uma elite da preparação física se mostrando exaustos logo após o primeiro round – até consequências mais graves. Alguns lutadores já chegaram a relatar experiências de “quase morte” enquanto se preparando para enfrentar a balança.

“Eu quase morri três vezes batendo o peso! Ainda no hospital, não queria soro, queria bater o peso. Para os lutadores, a próxima luta é a coisa mais importante de sua vida, por isso fazem qualquer coisa. Quando se está perdendo peso, a água é muito importante. Os músculos são 75% feitos de água, e se você para de beber água e usa coisas como laxantes, diuréticos, bulimia, vômitos, todas essas coisas fazem muito mal para o corpo e são uma fórmula para morrer. Bater o peso é uma arte. Se você não fizer uma dieta boa, depois de bater o peso não vai se sentir bem e vai lutar mal” – Eric Albarracin (Americano, treinador de Wrestling do time de Rodrigo Minotauro, em entrevista ao PVT)

“Durante o corte de peso, tive dor nas costas. O pessoal diz que é sinal de que está pegando o rim. Também desmaiei na sauna, e aí o médico do evento parou o meu corte de peso, e já me colocou no soro. Naquela vez, eu estava muito pesado, 14 kg acima. Depois dessa, vou deixar para perder 9, 10 kg no máximo, para não passar por estes problemas” – Gilbert Durinho (lutador de MMA da equipe de Vitor Belfort, em entrevista para Maurício Dehò)

“Todos nós treinamos acima e lutamos acima do peso. A categoria para valer só vale no dia da pesagem. Ninguém tem o peso que a balança marca no dia anterior da luta. Todos diminuímos a quantidade de alimentos nas semanas próximas da luta, mas não reduzimos a carga de treinamento, onde a maioria passa a usar roupas de borracha. É para suar muito mais. Nos dias mais próximos da luta começa o trajeto sauna-quarto. Eu também tomo água destilada, sem vitaminas e sais minerais. Mais de 10 litros por dia. Pior só a sauna. Todos os lutadores de MMA fazem a mesma coisa. Ficamos horas na sauna quentíssima. Saímos, tomamos banho gelado e voltamos para a sauna. Parece coisa de louco, mas é assim. Há quem chegue a perder cinco quilos em um dia. Assim que termina a pesagem é um prêmio. O alívio é mental primeiro, depois orgânico. Como o organismo precisa se reacostumar a se alimentar, tudo precisa ser feito com calma. Primeiro vem o soro. O soro fisiológico é importantíssimo. Depois, no mesmo dia, comida leve, frutas. A reposição dos carboidratos e proteína, geralmente macarrão e frango, agora com tempero, pois o sal retém água no organismo e é proibido nos dias que antecedem a pesagem. Depois muito sono e descanso. O organismo precisa se revitalizar. É um sacrifício que todos fazem” – Erick Silva (lutador do UFC, em depoimento para o jornalista Cosme Rímoli)

Abaixo, o vídeo de um programa de TV de 2012 sobre a preparação de um lutador de MMA (Raoni Barcelos) para sua estreia no esporte. Mais do que a luta em si, o foco é a luta contra a balança.

http://www.youtube.com/watch?v=DJEVKyY4qCw

 

A SOLUÇÃO

Hoje um lutador não pode se “dar ao luxo” de lutar no que seria sua categoria de peso natural, ou sofreria uma grande desvantagem no combate contra um adversário muitas vezes mais alto, mais pesado e mais forte. O que faz com que o processo de perda de peso seja uma parte fundamental da estratégia dos atletas desses esportes de combate.

“Isso não é emagrecimento, é perda de líquido. Só podemos submeter o atleta a esta técnica nos esportes onde a pesagem não é no dia da luta. Grande parte dos atletas americanos já fazem isso desde os 14 anos, portanto, eles têm a capacidade de secar e recuperar mais peso que os brasileiros. Acaba que os atletas dos EUA entram mais pesados e isso já os dá uma boa vantagem”Hélio Ventura (Médico da equipe Nova União)

Muito se discute sobre a questão da pesagem e algumas personalidades do mundo da luta são a favor, por exemplo, da pesagem logo antes do evento, ou mesmo na entrada da área de combate, o que teoricamente faria com que os lutadores se enfrentassem em suas categorias de peso naturais e sem sofrer com o perigoso processo de desidratação.

“Sou a favor da pesagem no dia da luta, os lutadores deveriam chegar na arena e se pesar. E seria o mais justo. Faria as lutas serem entre rivais mais iguais” – Vitor Belfort (lutador duas vezes campeão do UFC, em entrevista para Maurício Dehò, do UOL)

“Simples: é uma questão de legitimidade e saúde. O lutador tem que lutar no peso com o qual ele treina e anda na rua. Caso contrário, vira uma competição de quem perde e ganha mais peso. Vale lembrar quantos atletas já passaram por problemas de saúde”Rickson Gracie (mito da Mistura de Artes Marciais, sobre o evento de MMA que preside, onde a pesagem acontece no dia da luta)

“Os regimes vigorosos de redução de peso não são recomendados para atletas de combate de elite, tendo em vista as inúmeras alterações fisiológicas e psicológicas causadas por tais práticas, levando em conta que, em esportes de elite, um mínimo decréscimo no desempenho pode ser crucial na decisão do combate” – Lorenço-Lima e Hirabara (em um estudo científico sobre o assunto)

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Post Author: Stevan Corrêa

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